Liderança
Liderança feminina, autoridade e o custo de provar o tempo todo
Boa parte da minha formação profissional veio de mulheres que lideraram, orientaram e confiaram no meu trabalho. Este texto junta o que aprendi com elas aos dados de sub-representação no Brasil, e pergunta por que decisões tomadas por mulheres ainda precisam ser justificadas mais vezes.

Levantando alguns números recentes, podemos notar que a realidade brasileira no campo da equidade de gênero ainda está distante de ser a ideal.
Este é um assunto caro para mim porque boa parte da minha formação profissional veio de mulheres que lideraram, orientaram e confiaram no meu trabalho. Durante minha carreira, tive majoritariamente líderes e mentoras mulheres, de diferentes áreas e backgrounds, que contribuíram significativamente para me tornar o profissional que sou hoje.
É importante um recorte aqui: sou um homem branco de 37 anos falando sobre um tema que não vivo da mesma maneira que as mulheres. Não pretendo falar por elas. Quero apenas compartilhar o que observei, o que aprendi e as perguntas que essa convivência provocou em mim.
Com esses dados em mente, quero trazer um pouco das experiências que tive ao longo da minha carreira e por que este cenário deve mudar radicalmente.
Ao longo dos anos, tive a impressão de que mulheres em cargos de liderança precisavam justificar mais suas decisões do que homens em posições semelhantes. Não apresento isso como uma regra universal, mas como um padrão que observei mais de uma vez e que me fez pensar sobre o quanto a autoridade feminina ainda é colocada à prova. Aqui não estou dizendo que decisões e metodologias não devem ser explicadas: um time mais bem informado performa melhor. Mas a forma como isso acontece me parece desigual.
Algumas das lideranças mais generosas que conheci foram mulheres. Elas compartilhavam conhecimento, explicavam os caminhos e acompanhavam o processo sem transformar informação em moeda de poder. Não é uma questão de sensibilidade versus razão, mas sim de empatia humana básica. É impressionante como isso pode acabar se perdendo muito rápido no mundo corporativo.
Minhas líderes também me ensinaram que a resiliência não é apenas suportar dificuldades. É continuar aprendendo, adaptar-se e encontrar maneiras de seguir avançando. Nem sempre esse esforço é reconhecido como deveria, mas ter alguém que mostre como desenvolver essa capacidade faz diferença.

Vamos contextualizar com experiências reais?
Rose Alves: uma das minhas primeiras chefes. No começo da minha carreira, em 2006, quando ocupei a cadeira de gerente comercial, aprendi com ela a importância de processo, de consistência, de romper barreiras e, acima de tudo, como é possível se desafiar para novas posições e se capacitar no processo.
Denise Couvre: aprendi muito sobre qualidade, critério, trabalho em equipe e entregar além do esperado. Foi uma professora sobre como pensar e se adaptar a ambientes que mudam constantemente e sobre como a chave está em estar preparado para o inesperado.
Lídia Vieira Silva Domingues: ela me deu um voto de confiança em um momento em que eu estava inseguro sobre minha carreira, confiou no meu trabalho e na capacidade que tinha desenvolvido ao longo dos anos. Por causa disso, pude recuperar meu jogo de cintura e me tornar um profissional mais confiante e que busca desafios.
Mayline Medeiros Shiga: com a May, a liderança é baseada na confiança. Sinto liberdade em poder atuar e propor. Juntos podemos discutir e chegar a soluções para nossos objetivos, além disso, é uma liderança apoiada na franqueza e na troca honesta, o que é muito valioso, porque hoje as pessoas costumam preferir o meio-termo à verdade, mesmo quando a verdade pouparia tempo.
Por isso, acredito que ampliar a liderança feminina no comando de empresas, áreas e times não é apenas uma questão de representatividade. É também uma oportunidade de ampliar as formas de liderar, compartilhar conhecimento, tomar decisões e construir ambientes de trabalho mais humanos.
Como podemos mudar esse cenário e de fato pensar programas de aceleração para carreiras de lideranças femininas?
